Capoeira toma sentido, cultura também é a nossa praia

 Ministro Juca Ferreira e demais diretores do Ministério da Cultura

Será que é isto mesmo?
Temos feito algumas reflexões nos últimos meses sobre o que nós, capoeiristas, temos feito para mostrar para a sociedade a nossa força. Realizamos durante anos seguidos diversos eventos de Capoeira, não só no Brasil mais em diversas partes do mundo. Batizados, encontros, congressos, seminários, competições, enfim, uma gama muito grande de atividades culturais e esportivas, mobilizando um grande número de pessoas, praticantes ou não de nossa Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem.

Mais há que isto tem nos levado? Sinceramente não sabemos. Diversas discussões tem sido realizadas envolvendo a Capoeira e, em sua grande maioria, o capoeirista não está presente. Vimos tentando fazer a nossa parte, contribuindo em algumas discussões, mais não tem sido suficiente. Muitos falam da "força" da Capoeira; muitos falam que somos mais de 6 milhões de praticantes no Brasil, mais quando precisamos participar de  discussões importantes para o futuro de nossa Capoeira e dos que a praticam, não estamos presentes. Um exemplo do que estamos falando são as Pré-Conferências Setoriais de Cultura realizadas em Brasília com o apoio do Ministério da Cultura. Aconteceram as pré-conferências setoriais de Culturas Afro-brasileiras, Culturas Populares e Patrimônio Imaterial,  e a Capoeira, como um todo, não esteve presente. Estivemos participando da Pré-Conferência Setorial do Patrimônio Imaterial, onde fomos  o único capoeirista de todo o Brasil presente como delegado na pré-conferência ocorrida de 7 a 9 de março no Distrito Federal. 

E o Programa Pró-Capoeira? Você sabe o que é e pra quem é?
No momento em que se discute, pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) a realização do Programa de Salvaguarda da Capoeira, o Pró-Capoeira, seria de suma importância a participação em peso de diversos representantes da Capoeira nestas pré-conferências,  em especial a de Patrimônio Imaterial, já que é ali que se encontra hoje as discussões acerca da Salvaguarda dos Saberes dos Mestres de Capoeira e das Rodas de Capoeira.

 Mestre Paulão com o Presidente do IPHAN, Luiz Fernando de Almeida 
e Márcia Sant'Anna, Diretora do Patrimônio Imaterial


Acreditamos que os (as) capoeiristas não estão atentos a estas discussões. Para vocês terem uma idéia, nos três dias que ficamos em Brasília, apenas um Mestre do Distrito Federal esteve presente, Mestre Zulu, que participou da pré-conferência como convidado, sem direito a voz e voto, infelizmente. É sabido que grandes eventos de Capoeira são realizados na região, inclusive com a participação de capoeiristas de diversas partes do país, mais no momento em que a Capoeira precisa de seus pares para defendê-la, eles não se fazem presentes. 

Mais como fomos para lá para cumprir o nosso papel, participamos ativamente das discussões sobre Patrimônio Imaterial, dando as nossas contribuições no eixo 2, que teve como tema "Cultura, Cidade e Cidadania". 

"Menino, toma sentido, Capoeira tem fundamento"
Como disse o Ministro Juca Ferreira na abertura da Pré-conferência, no domingo: "Cultura é como amor. Todas as formas valem a pena". E como disse Mestre Pastinha "Capoeira é tudo o que a boca come...". Então porque será que o capoeirista só participa de eventos quando o berimbau toca? Tivemos em Brasília a oportunidade única de eleger um representante da Capoeira para o Conselho Nacional de Política Cultural - CNPC, mais como não tinhamos participantes suficientes, ficamos "a ver navios". 

 Mestre Paulão e o Ministro da Cultura, Juca Ferreira

Precisamos acordar, e o mais rápido possível, antes que seja tarde, para os fatos que vem ocorrendo para o "desenvolvimento" de nossa Capoeira. Agora mesmo o IPHAN lançou um edital para a primeira etapa do Programa Pró-Capoeira, restringindo a participação de Associações/Grupos/Entidades de Capoeira legalmente constituídos, já que o edital é destinado apenas para  as OSCIP (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público). Questionamos o IPHAN sobre este edital, mais as respostas que obtivemos não foram muito satisfatórias. Pior que isto foi ouvir de diversos representantes, de diversos seguimentos culturais, de diversas regiões do Brasil, de que isto se  deve a divisão, as brigas da Capoeira. Nem as instituições nem as pessoas acreditam que podemos construir algo juntos. Isto é lastimável, só vem para confirmar a imagem que passamos para a sociedade. 

Sobre o Colegiado Setorial da Capoeira no CNPC
Outro fator importante que, parece,  os caspoeiristas não deram importância, foi o abaixo assinado que propusemos, solicitando a criação do Colegiado Setorial da Capoeira no Conselho Nacional de Política Cultural. Neste conselho já existem os colegiados do circo, da dança, do teatro, da música, entre outros, e porque não deveria haver o da Capoeira também? Isto é o que almejamos, o que pretendemos, já que neste Conselho é que se tem discutido toda a política cultural realizada em nosso país. Portanto, não podemos e não devemos ficar de fora. Mais não deram muito bola para isto também. O mais engraçado disto tudo é que nem as instituições que "administram" a Capoeira e nem os chamados "grandes grupos" vieram dar oficialmente seu apoio a este abaixo assinado. Talvez ainda não tenham alcançado a importância de tal ato, mais esperamos, sinceramente, que não seja tarde demais. Que consigamos realmente os espaços de poder de que a Capoeira quer e precisa, já que estes são espaços que são nossos por direito. Ou vamos ser utilizados o tempo todo por àqueles (as) que ocupam estes espaços? 

 Mestre Paulão e Sérgio Mamberti, presidente da Funarte

Galera, vamos acordar. A hora não é apenas de tocar berimbau, de jogar Capoeira, e sim de usar a nossa "mandinga", a "malandragem" que aprendemos nas rodas de Capoeira e da vida para dar o nosso golpe certeiro. Capoeira quer poder, Capoeira quer a Câmara Setorial no Conselho Nacional de Política Cultural".

II Conferênca Nacional de Cultura
Enviamos para o Mestre Gavião, de Porto Alegre (RS) proposta de Moção para ser apresentada na II Conferência Nacional de Cultura que encerra-se neste domingo, em Brasília. Esperamos sinceramente, que esta Moção, que solicita ao Ministro de Estado da Cultura a criação do Colegiado Setorial da Capoeira, tenha sido encaminhada para a plenária da Conferência e que esta tenha sido aprovada por todos e todas.

Bom, para concluir, meus camaradas, esperamos que este nosso texto sirva de reflexão para nossos pares. 

Camarada, toma sentido, Capoeira tem fundamento. IÊ!

Mestre Paulão - Coordenador da Rede Nacional da Capoeira