QUILOMBOLAS: ESTUDO APONTA PRECARIEDADE ALIMENTAR

Fausto Oliveira

A Fase Espírito Santo, em parceria com o programa nacional Agroecologia e Segurança Alimentar, realizaram há algumas semanas um estudo sobre as condições de segurança e soberania alimentar de comunidades quilombolas do norte capixaba. São remanescentes de escravos que habitam aquele território tradicionalmente, e que com a intensificação da monocultura de eucalipto naquele estado vêm encontrando dificuldades em manter sua cultura alimentar. O resultado desse processo é sua progressiva erosão cultural e perda das condições nutricionais das famílias, com impacto na saúde e na possibilidade de manter a vida rural que lhes é própria.

A vasta monocultura de eucalipto do Espírito Santo é responsabilidade exclusiva da empresa multinacional Aracruz Celulose. Ela está presente no estado desde a década de 1960, e de lá para cá devastou grande parte da Mata Atlântica, expulsou comunidades rurais tradicionais que lhe estivessem no caminho e encheu o território com eucaliptos. Como se sabe, plantações de eucalipto comprometem o estoque de água subterrânea, pois têm raízes muito longas e sugam muita água. Aos milhões, sugam muito mais. Além disso, os tóxicos e defensivos agrícolas usados pela Aracruz terminaram de contaminar as fontes hídricas de superfície e o solo. Todo este quadro vem impondo às comunidades rurais do norte do Espírito Santo uma mudança de hábitos alimentares que os afasta completamente de sua cultura e seu modo de vida.

O estudo feito pela Fase mostrou que os mais velhos tinham uma dieta rica e variada em sua época de infância. Depois, comparou-se esta memória da configuração alimentar com a dieta que suas crianças têm hoje em dia. Na infância, os quilombolas de antigamente costumavam ingerir, entre outras muitas coisas, alimentos como: feijão de corda, fava, guandu, mandioca, araruta, arroz de côco, galinha caipira, tatu, paca, porco do mato, jacaré, traíra, robalo, cascudo, corocoxó, mussum, miroró, barriga mole, ingá, caju, manga, banana, abacate, araxá, cambucá, pindoba... A lista é maior, selecionamos aqui apenas alguns com nomes pouco conhecidos da população em geral, a fim de mostrar como a variedade alimentar está aos poucos se perdendo, em troca de uma uniformização industrial da dieta de todos. O que se comprovou quando a pesquisa percebeu o que as crianças quilombolas de hoje ingerem diariamente.

Hoje, como as comunidades vivem cercadas pelo eucaliptal da Aracruz, não têm mais espaço, água limpa ou solo fértil para plantar como plantavam, ou para criar animais. Para sobreviver, recorrem a supermercados e, com sua renda pequena, podem comprar pouco e nem sempre o que há de melhor qualidade. Um programa de cestas básicas foi iniciado pelo governo federal, mas apenas 7 das 39 comunidades quilombolas da região recebem estas cestas. Sem dúvida a cesta básica é uma solução emergencial, mas o que ela oferece é a dieta padronizada que não é a preferida das comunidades. O resultado disso é que as crianças já não compartilham da cultura alimentar de seus pais, e ingerem diariamente embutidos, biscoitos recheados e outras variedades industriais.

A segurança alimentar, mesmo nas comunidades que recebem as cestas básicas, está em risco. Este é um processo que acontece no norte do Espírito Santo, mas podem-se ver reflexos dele em diversas regiões do campo brasileiro. Cada vez mais é difícil para o habitante do meio rural permanecer no campo. E quando permanece, é forçado a se relacionar com a cultura do capitalismo urbano mesmo sem querer, pois o território que tradicionalmente ocupa está constantemente sob invasão, apropriação e abuso da parte deste mesmo capitalismo industrial que retira do meio rural as condições de vida.

Fonte: congressonacionaldenegrasenegros@yahoogrupos.com.br em nome de MARTA ALMEIDA FILHA