Escravos, Batucadas e a Lei Áurea – Somos o que somos e não o que eles dizem!

A Lei Áurea redimiu da consciência de nossos algozes históricos ocidentais de origem européia o peso da violência praticada contra nós africanos e descendentes por (300) trezentos anos de história cativa, "nos libertando das amarras da escravidão"?

Será? Um viva a Princesa Isabel!- Viva! Talvez por termos sido incapazes de construção de nossa liberdade? E/ou apenas termos sido meramente excluídos da foto oficial, enquanto radicalizávamos contra a ordem instituída a época da princesa, por nossos antepassados quilombolas? Pense nisso como uma reflexão.

Vira e mexe sentimos que acontece algo parecido a esse ímpeto de bondade, a qual a história oficial nos deixou por herança; são os que se beneficiam por nossa exploração revestido de inclusivos modernos; existe renovações de como poder explorar negrinhos ou o que socialmente lhes é parecido sociologicamente, o pobre; seja de que raça for no contexto contemporâneo.
Aqui na Pedra do Sal, na Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro, lutamos contra uma maré desfavorável mobilizada por poderes econômicos históricos de um segmento da Igreja, que nós parece não optou pelos pobres, mas pelo lucro.

Somos marginalizados, até por marginais de fato e de verdade, que foram comparados a melhor opção de civilidade na nossa área Portuária que nós quilombolas da Pedra do Sal, por alguns, sob influência do discurso construído por representantes da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitencia – VOT; por abrirmos a discussão de nossa história quilombola... A Igreja Católica que nos combate usa de todos os meios para nos atingir, e muitas vezes esquece da coerência e dos escrúpulos das disputas leais no desespero de nos afrontar.

Estamos numa área de poderes paralelos e sem vínculos com a decência e a integridade física dos que eles repudiam. Nossos algozes políticos, "como bons cristãos", não podiam ter vacilado tanto assim ao levianamente nos acusar.

'Por isso o Líder quilombola Damião Braga, por coação, além ser obrigado a abandonar sua casa no Quilombo Pedra do Sal, situada na Travessa do Sereno nº 11 por um poder não legal, teve que "dá um tempo" de sua base de moradia e identidade; enquanto o acusavam de covarde por sair de cena de sua Comunidade. Os quilombolas que ficaram optaram pelo silêncio'.

Já denunciamos muitas coisas no MPF, no INCRA, e na FCP sobre as ações irresponsáveis de nossa principal desafeta na questão fundiária da Pedra do Sal a VOT contra nós; no jogo político do debate entendemos sua posição de resguarda patrimonial do que não lhe pertence, sabemos, mas ela diz pertencer.

Lutar sobre o que se acredita é legitimo, mesmo no erro, até pelo o que é equívoco. Só não compartilhamos com deslealdades e golpes baixos.

O Quilombo Pedra do Sal, sob liderança da Associação da Comunidade Remanescente do Quilombo Pedra do Sal – ARQPEDRA, é o último grande assunto de destaque nas discussões sobre africanidade na Zona Portuária do Rio de Janeiro. Capitaneado por herdeiros de africanos que estão instalados na região, que assumiram a resistência guardiã legitima de suas identidades, abriu-se polêmicas interna e externamente sobre ele.

O fato que nos faz vir a público com esse texto são as sucessivas demandas em apropriações do Quilombo Pedra do Sal (por um capitalismo de entretenimento burguês) da história de nossos antepassados desvinculadas dos herdeiros de hoje; e uma mera espetacularização dos nossos signos por esses "discutintes" ávidos por mais verbas públicas ou privadas para seus projetos
sociais. Eles nos omitem ou se posicionam com sutilezas contra o que falamos. Esse será assunto para discussões mais profundas. Inclusive a posição, numa entrevista na revista que citaremos abaixo, do Historiador e escritor Joel Rufino, que muito respeitamos.

Temos observado que esses "discutintes" nos reservam um silêncio que não temos e um desconhecimento profundo do que nós somos. Achamos parecer isso uma estratégia combinada para pequenas apunhaladas e uma simpatia aos que se formaram donos de tudo pela história inverídica na Zona Portuária, que só entorpece os leigos, usados em momentos pontuais contra as posições da ARQPEDRA - quem soube da reunião nas instalações das escolas Dr. Pe. Francisco da Motta e Sonja Kill da VOT na Região Portuária, em meados do ano passado (2007), sabe do que estamos falando.

Lendo o tablóide de nº 0 ano 1 que nos chegou as mãos "Batucadas Brasileiras", vimos a capa, tendo os seus representantes simbólicos (Robertinho Silva e o grande Carlos Negreiros) a frente sentados sobre a Pedra do Sal com um pequeno número de alunos do tal projeto social e colaboradores afins, mas não vimos seu principal articulador jornalista, que diz promover um debate sobre a região portuária e sua história de negritude no editorial. Onde? Com quem? Com empresários e mecenas, sem o povo orgânico que representa a resistência da história que há nessa região?

Achamos esse papel sem conteúdo político e apenas empresarial, ainda assim com dinheiro público, o mesmo que faz o bloco "Escravos da Mauá", trazendo gente de fora, mas preocupado em manter-se fora das polêmicas políticas da região, como já foi-nos confessado por alguns de seus mobilizadores que moram na Zona Sul carioca... Uns ali ao lado do Quilombo Sacopã. Tão massacrado pela elite local!

Assim é fácil manter projeto cultural e social no quintal alheio. "Quanto vale? Ou é por quilo?" - lembram seu conteúdo crítico? Eles, que vêm pra cá, acreditam que encher nossas ruas de ambulantes locais e flanelinhas é parte do retorno social para as suas atividades quando acontecem. Será que é isso mesmo que queremos para nossa gente (quilombolas ou não) e para releitura da História que pleiteamos construir?

Nesta mesma revista, editada numa instituição mantida na sua estrutura total com dinheiro público (Petrobras, quase na sua totalidade), instalada em nossa região portuária, que foca sua opção de debate sobre o nosso patrimônio cultural e étnico, achamos que não poderíamos nos calar a continuidade desse abuso de uso de nossa identidade e símbolos com esse olhar pequeno burguês do senhor jornalista, que em nossa leitura critica vem a cá se posicionar como uma nova Princesa Isabel, a redentora dos que não sabem fazer a sua própria história. Vão nos tirar da foto de novo!

Por posicionar-mo-nos assim é que somos quilombolas. Hoje Resistência Crítica! As cartas estão na mesa. O Poder econômico é deles, mas a história foi nossa gente quem fez. E quem tem por obrigação primeira em guardá-la, somos nós.

*Associação da Comunidade Remanescente do Quilombo Pedra do Sal – ARQPEDRA*

Damião Braga Soares dos Santos

Presidente da Associação da Comunidade Remanescente do Quilombo Pedra do Sal – ARQPEDRA

Presidente em exercício da Associação de Comunidades Remanescente de Quilombos do Estado do Rio de Janeiro - ACQUILERJ
damiaobraga@gmail.com
(21) 9701-8905

(61) 9631-8201

Fonte: Rede 3Setor